Paranaíba - MS, 28 de outubro de 2026 - 20:05

Acretismo placentário: o risco escondido na gestação que pode transformar o parto em emergência

Condição pode causar hemorragia grave, 2ª principal causa de morte materna no Brasil

Foto Divulgação

Quando a farmacêutica Andressa Nunes Ferreira Faustino, de 34 anos, entrou no centro cirúrgico no dia 1º de junho de 2026 para dar a luz a Bento Emanuel, junto com ela estavam também seu esposo, Diego, e pelo menos mais seis profissionais: uma equipe multidisciplinar formada pela ginecologista obstetra Dra. Vanessa Chaves, os anestesiologistas Dra. Helena Berriel Tanus e Dr. Luiz Gustavo Orlandi, além de urologista, oncologista pélvico, cirurgião vascular e enfermeiros. Vagas na UTI adulta e UTI neonatal também já estavam reservadas.

Todos esses cuidados foram necessários e fundamentais para o sucesso do parto porque, com 28 semanas de gestação, Andressa descobriu que tinha acretismo placentário, uma condição ginecológica grave caracterizada pela fixação anormal e profunda da placenta na parede do útero. Registrado com cada vez mais frequência nas maternidades e hospitais de todo o país, se não for tratado da forma adequada, o acretismo placentário pode levar à histerectomia (retirada do útero) e até à morte materna por hemorragia.

Dra. Vanessa Chaves

“Geralmente, depois que o bebê nasce, a placenta se solta e o corpo a expulsa espontaneamente ou com ajuda médica. Em casos de acretismo, a placenta continua fortemente ligada ao útero e sua retirada pode causar hemorragia intensa”, explica a ginecologista e obstetra Dra. Vanessa Chaves. 

Nas ocorrências de acretismo, a placenta é classificada de três formas, de acordo com a profundidade com que se liga ao útero: acreta, quando está aderida de forma mais superficial; increta, quando afeta a musculatura do útero; e percreta, quando penetra toda a musculatura e atinge outros órgãos, como a bexiga, por exemplo. Esse último era o caso de Andressa.

A anestesista do Servan Anestesiologia, Helena Berriel Tanus, explica que quanto mais aderida está a placenta, maior é o sangramento. “A perda de sangue pode chegar a até 750 ml por minuto, ou seja, em questão de quatro, cinco minutos, essa paciente pode desestabilizar, entrar em choque hipovolêmico e vir a óbito. Por isso é feito todo um checklist pré-operatório, a punção de diferentes acessos para repor o volume com rapidez, além, claro, do monitoramento da hemodinâmica, do pulso, da pressão, respiração, entre outros”, pontua. 

Duas cirurgias em uma

O parto cesárea com quadro de acretismo placentário não é uma cesariana convencional. A cirurgia é complexa e extensa, com duração de até seis horas, podendo ser “dividida” em duas partes: a primeira é a do nascimento do bebê, quando usam-se acessos e medicamentos específicos para aliviar a dor da mãe. “Geralmente, utilizamos raquianestesia e peridural, que mantêm a mãe acordada e consciente para ter ali o primeiro contato com o bebê, mas sem o risco dessa medicação passar para o bebê, o que causaria desconforto respiratório e outras complicações no recém-nascido”, comenta a anestesista Helena Berriel Tanus. 

Depois do nascimento, inicia-se uma outra cirurgia, que é a da manipulação da placenta. E os sinais da paciente também se alteram. “A paciente é submetida à anestesia geral para que a gente possa retirar a parte doente, onde o acretismo estava acontecendo, e preservar a parte saudável do útero. E isso não é só para manter a fertilidade, caso aquela mulher queira ter mais filhos futuramente, como é o caso da Andressa, é também porque é o mais seguro para evitar a hemorragia, que é, atualmente, a 2ª principal causa de morte materna no Brasil, e a 1ª no mundo. Sendo que morte materna por hemorragia é 100% evitável”, afirma Vanessa. 


A importância do pré-natal

Anestesista Helena Berriel Tanus

Evitar que uma hemorragia durante o parto se torne uma perda começa no pré-natal. É preciso fazer acompanhamento completo e detalhado, com exames como Ultrassonografia com Doppler e Ressonância da pelve com atenção à placenta para identificar o acretismo. O histórico obstétrico também é muito importante, porque cesáreas prévias e alterações placentárias são fatores de risco para o desenvolvimento do acretismo. 

Para Vanessa Chaves, o que ocorre é uma subnotificação alta dos casos de acretismo, por não ser uma condição muito conhecida, nem entre as mulheres nem entre os profissionais da saúde. “Sem um pré-natal bem feito, descobre-se a condição só na hora do parto, que geralmente é de urgência. Na maioria das vezes, a solução é realmente retirar o útero para resolver a hemorragia e tentar salvar a vida da mãe”, comenta Helena.

Como Andressa realizou o pré-natal e diagnosticou o acretismo com antecedência, pôde planejar o parto de maneira mais segura. “Minha preparação foi médica, mas também foi emocional e espiritual. Eu precisava confiar naquela equipe. Quando fui compreendendo tudo o que havia sido feito durante aquelas horas para controlar a hemorragia e preservar a minha vida, minha sensação foi de uma gratidão imensa. Consigo perceber que cada decisão, cada recurso e cada profissional teve importância para que eu pudesse estar aqui contando essa história”, relembra Andressa. 

Se hoje Andressa consegue acompanhar o desenvolvimento de Bento Emanuel, que tem quatro meses e é um bebê saudável e esperto, é porque profissionais qualificados e preparados estavam lá na hora do parto. “Na hora da crise, que você tem pouco tempo para tomar decisão e agir, os detalhes fazem diferença, o mínimo faz a diferença. O trabalho em equipe é fundamental”, finaliza a anestesista Helena Berriel Tanus. 

Fonte: Evelise Couto

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